Dune, encontro com o destino

Dune, encontro com o destino

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A escala e a paixão com que este filme foi feito trespassa os nossos sentidos a cada frame, a cada segundo, a forma como a fotografia e o som nos esmagam por completo, a maneira como somos transportados para este universo e por duas horas e meia sentimos que fazemos parte desta história épica e eterna sobre o poder da religião, a generosidade da humanidade e as lágrimas do destino. Aquela personagem, simbólica e icónica, de Lawrence da Arábia a Spartacus, de Nelson Mandela a Jesus Cristo, Paul Atreides (Paul Muad’ib) é a metáfora final e absoluta do líder inspirador e altruísta com que o povo do planeta terra sonha deste há milénios, o homem que corta com o presente e nos devolve a verdadeira liberdade, o sentido do amanhecer como uma promessa: a palavra de Deus. O homem que é apenas um símbolo e que por isso se transcende, se sublima na figura mítica do reino dos sonhos e das visões, tal como ele próprio se vê a si mesmo numa premonição sombria da cruzada em seu nome. Do messias anunciado ao tirano, da verdadeira liberdade como uma ilusão ao fanatismo totalitário, o épico que emula a história dos grandes líderes humanos, desse sonho à queda no abismo profético das cruzadas ideológicas (em nome da justiça), simbolizado por fim no caminho dourado de Paul Muad’ib

Dune de Denis Villeneuve

Feito com um respeito e um amor por esta arte total que é o cinema que a mim me comove e arrebata por completo, “Dune” não é uma história fácil; aborda o lado negro da humanidade, a facilidade com que se resvala no totalitarismo mais básico e cruel, apesar do sonho revolucionário e sonhador dos grandes líderes inspiradores. É por isso um épico cautelar que nos obriga a reflectir sobre temas como o socialismo, o ambiente e os ecossistemas, religião e sobretudo sobre o destino elíptico da humanidade. A forma como nos revisitamos estranhamente no tempo e no espaço. Paul Atreides não é um “predestinado”, mas sim um “preparado”, um “projectado”, um produto da superstição e de uma lenda implantada e fabricada, e em certa medida um símbolo cautelar em relação ao perigo que representam os grandes líderes carismáticos e a cegueira colectiva que provocam, e mais do que a complexa camada filosófica da obra angular de Herbert, aflora-se de forma carnal o medo da queda na intolerância e na desumanidade: a mensagem central e subliminar de “Dune”; da vida de Paul Muad’ib, de Alia e mais tarde Leto II. Um filme por isso completamente incontornável no cinema deste princípio de século.