Deitar abaixo as estátuas

Deitar abaixo as estátuas

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Nem sei bem por onde começar, mas dá vontade de dizer que” não foi para isto que me inscrevi”; relativizando podemos baixar o volume da coisa pensando que se trata apenas de um filme sobre uma sereia, um remake de um filme de animação sobre uma sereia e um caranguejo que fala, sim ok, mas é a mensagem subliminar que se quer passar que a mim, pessoalmente, me irrita, ser igualitário por procuração ou porque a tabelinha de excel diz que é melhor e que pode vir mais pasta a mim soa-me a banha da cobra; dar uma de gajo de esquerda progressista e meter people negro em papeis principais de um clássico da Disney, e logo a “Pequena Sereia”, cuja personagem original (e original será para todo o sempre) só era ruiva e de olhos azuis, sabem o que me faz pensar? Faz-me pensar nos óscares por necessidade de uma qualquer consciência pesada numa indústria cheia de esqueletos no armário para com os negros, as mulheres, os gordos e os deficientes, tudo gente que não apareceu no cinema nem nas séries da Netflix durante décadas, e eu até percebo a necessidade de lavar a imagem….but, not like this.

O reboot de “A pequena sereia” está marcado para 2023

Para mim isto é só ridículo e um desrespeito enorme pela herança cultural e autoral do nosso património colectivo, será que a Pequena Sereia foi mais um sintoma da nossa sociedade intrínsecamente racista e xenófoba, para qual parece que alguns apenas agora estão a acordar? Não me parece, e reescrever a Pequena Sereia em modo Nigga convida ao efeito oposto: 1,5 milhões de não-gostos na 1a release no youtube, uma boa parte deles provavelmente de gente negra. Não é nesta espécie de revisionismo histórico ou cultural que a dita, a minha dita esquerda social-democrata vai cimentar a sua mensagem ou propósito, mas sim no respeito pela nossa herança cultural histórica, que não deve nunca ser reescrita, mas entendida, interpretada e ensinada; não se deve deitar abaixo estátuas, isso é o que os ditadores fazem, mas sim olhá-las como o registo natural dos tempos, a pontuação inevitável do avanço civilizacional. Pintar a Ariel de castanho é uma versão enviesada deste propósito nobre das verdadeiras sociedades progressistas que devem lutar pela autenticidade e honestidade dos seus valores. Queriam uma sereia negra? Escrevessem uma nova história, um novo enredo para uma nova personagem; iria ver de bom grado, assim, vai ser apenas aquilo que de facto a Disney quis que fosse: um panfleto político que esmaga a obra e os seus artistas.