A Direita

A Direita

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Após a Revolução Francesa de 1789, foram claras as sementes de uma orientação política que prolongava os valores fundamentais das sociedades ancestrais, no que diz respeito ao papel das mulheres restrito ao universo familiar, à imersão da religião nas decisões políticas e militares, à divisão da riqueza (a chamada justiça social) entre ricos e pobres e à preservação a todo o custo da aristocracia e valores nacionais, que se entendiam como representantes máximos da identidade nacional. O que nós chamamos hoje de “Direita” é o produto da destilação lenta dessas ideias pré-revolucionárias, adaptadas, ainda que no fundo de forma mínima, às novas e mais modernas visões da sociedade, em particular à Social-Democracia e ao Socialismo Democrático. O resultado é uma visão política que assenta num profundo respeito e culto pelas liberdades individuais, da democracia representativa (não direta) e do papel mínimo do Estado. Apesar desta sintonização com a contemporaneidade que a Direita sempre soube fazer, no seu cerne continua a pressistir um olhar sobre o mundo que tende a ser resistente a qualquer alteração de equilíbrios na sociedade que ponha em causa os seus eixos fundamentais: família, religião, estratificação social, o papel matriarca das mulheres e os valores ancestrais considerados como símbolos da nação. Daqui decorre uma profunda relutância a redefinições na escala de classes, como a luta operária e estudantil do maio de 1968, ou a causas fracturantes como a lei do aborto ou a pena de morte.

Após o Maio de 68, a Direita política Europeia incorpora muitas ideias oriundas da Esquerda Liberal, também conhecida como Social-Democrata, ou mais tarde com Clinton e Blair, a mítica “3ª via”, e passa a incorporar no seu discurso um certo pendor por algumas, poucas, causas sociais, mas sempre numa abordagem mais caridosa e nunca ativista ou solidária. A transfiguração da Direita Ortodoxa numa Direita Liberal não foi tanto um acto de canibalismo ideológico mas antes um decisivo upgrade que passou a fazer da maior parte dos partidos oriundos da sua ala política um sinônimo de populismo, já que combinavam no seu discurso um apelo ao individualismo, à sectarização da sociedade em fortes e fracos como uma inevitabilidade, mas agora também a uma luta intransigente contra a pobreza através da doação caridosa dos mais ricos aos mais pobres. Este interessante shift da Direita rumo ao socialismo de pacotilha foi a semente percursora de uma miríade de orientações políticas onde, paradoxalmente, os mais desfavorecidos e pobres eram o cerne do discurso. Propunha-se por isso uma sociedade completamente tolerante a ricos e pobres, incorporando os valores da economia de mercado mas também os grandes valores morais cristãos, ou seja, o reordenamento da riqueza e o equilíbrio social fazia-se recorrendo um pouco à voz da consciência de cada um: “e quem quer dar, dá“. Os Democratas-Cristãos eram aliás um produto Norte-Americano da era Reagan, a última e mais decisiva reincarnação da Right-Wing, a “American Excellence”  Republicana dos anos 80.

VARIOUS...Mandatory Credit: Photo by AG/KEYSTONE USA / Rex Features ( 507863au ) Ronald Reagan at a press conference in Washington, America - 24 Feb 1988 VARIOUS

Ronald Reagan

Em certa medida, a política de Direita tende a ser uma simplificação perigosa do que é na realidade uma organização social humana. De certa forma acreditar que apenas os melhores e mais fortes devem chegar em primeiro à meta, mas sem querer saber onde estava a linha de partida de cada um. As sociedades regidas pelos valores da Direita Ortodoxa, mesmo nas suas versões Sociais-Democratas, falham miseravelmente na justiça social, já que o sistema ultra-liberalizado facilita a implementação de oligarquias que tendem a fazer o dinheiro circular em loop no seu seio com o passar do tempo. A retirada do estado de cena provoca a prazo a mitigação natural do seu poder regulador provocando a desregulação no mercado e favorecendo com isso concentrações anormais de riqueza em percentagens cada vez menores de população. O resultado óbvio é uma sociedade desigual, em que os pobres tendem a ser cada vez mais e mais pobres e os ricos cada vez menos e mais ricos. Apesar do culto pelas liberdades individuais a política de Direita vê-se completamente incapaz de garantir igualdade de oportunidades para todos, já que o único fator equilibrador, a política social de redistribuição de riqueza, está ausente ou muito atenuada, e a relutância atávica da direita por impostos progressivos (quem tem mais, paga mais) acaba por cavar ainda mais o fosso entre quem já nasce pobre ou rico. Por outro lado, um sistema econômico em roda-livre dá sempre, e deu sempre, um péssimo resultado, e apesar da inspiração liberal, um dos paradoxos evidentes da política de Direita, sobretudo da ala neo-conservadora (os neocons), é a sua posição em relação à regulação dos mercados financeiros: apesar de libertários quanto ao fluxo de capitais, e da defesa feroz do sistema bancário, a direita é confusa e atabalhoada quando rebentam as tradicionais bolhas especulativas, quando a corrupção se instala ou quando as grandes instituições financeiras colapsam, sendo que nessa altura o estado já se torna curiosamente necessário, e mesmo indispensável, para recapitalizar e trazer equilíbrio ao sistema financeiro, normalmente com o dinheiro dos contribuintes. O apelo à iniciativa privada, encarado quase como uma religião, por si só não resolve os problemas em países com debilidades estruturais relacionadas com o crescimento, por exemplo, onde o estado terá de ser forçosamente o elemento impulsionador quando mais nada existe, mas isto é profundamente antagônico com a filosofia econômica de direita que insiste no protecionismo quase obsessivo ao investimento privado em detrimento da intervenção do estado; este facto foi a explicação de estrondosos desastres como o Brasil nas épocas de Color de Melo, da Argentina ou de Margaret Thatcher e o surto de desemprego Inglês na década de 80. Por outro lado, a sua natureza intrinsecamente caridosa na abordagem ás questões de exclusão social, eterniza os problemas em vez de os resolver, já que a abordagem caridosa, ao contrario da solidária, não é tanto de resolver a questão através de uma política integrativa de ação social, como políticas de promoção de emprego, ou mesmo de recondução ao mercado de trabalho, mas antes de uma doação material, um bálsamo temporário sem consequências de fundo que favorece a criação de bolsas de pobreza auto-sustentadas no tempo. A antagonização natural que a direita tem com os direitos das mulheres e dos homossexuais, um certo vazio moral hipócrita, e sobretudo a facilidade com que cai em paradoxos fez com que muitos partidos tradicionalmente de direita derivassem ao centro na busca de um eleitorado mais moderado, esbatendo hoje em dia a linha divisória entre esquerda e direita em algo que se convencionou chamar de centro político.

O Discurso de Direita é simples, sugere a rectidão moral como o eixo percursor da acção; fazer o justo e o que está certo, sempre. Ajudar os mais pobres não é uma necessidade, é um dever de cada um, na perspectiva do cristão devoto. A Direita Social-Democrata alia de uma forma escorreita e lógica os valores da economia liberal de mercado e o livre trânsito de capitais com o culto da liberdade individual; se alguém trabalhar o suficiente poderá vencer na vida e ser bem sucedido. Neste sentido, o discurso da Direita apela de forma profunda ao nosso individualismo, falando diretamente ao coração das pessoas, exacerbando a confiança em cada um e nas suas capacidades, incentivando o culto pessoal, os valores da excelência e do rigor como única receita para vencer numa sociedade capitalista fortemente liberalizada.